"João do Rio, de certa forma, brincou com o mundo e com os limites potencialmente abertos de expressão no espaço institucional da comunicação. Era, por outro lado, uma voz de perito - como agente autorizado a formar referencialidades sobre imagens e experiências urbanas - mas, por outro, um personagem destas imagens e experiências explorando a competência do recurso linguístico em absorver significações criadas para além dos limites racionais da fala exclusivamente intelectual." retirado o trecho do livro Imprensa e espaço público: a institucionalização do jornalismo no Brasil ... - Página 232
"... -Por isso mesmo: para as conhecer. É que essas duas meninas são, meu caro Pessimista, um caso social - um expoente da vida nova, a vida do automóvel e do velívolo. O homem brasileiro transforma-se, adaptando de bloco a civilização; os costumes transformam-se; as mulheres transformam-se. A civilização criou a suprema fúria das precocidades e dos apetites. Não há mais crianças. Há homens. As meninas, que aliás sempre se fizeram mais depressa mulheres que os meninos homens, seguem a vertigem. E o mal das civilizações, com o vício, o cansaço, o esgotamento, dá como resultado crianças pervertidas. Pervertidas em todas as classes; nos pobres por miséria e fome; nos burgueses por ambição de luxo; nos ricos por vício e degeneração. Certo, há muitíssimas raparigas puras. Mas estas, que se transformaram com o Rio, estas que há dez anos tomariam sorvete, de olhos baixos e acanhados, estas são as modern girls.
- Um termo inglês ...
- Diga antes americano - porque americano é tudo que nos parece novo. Antigamente tremeríamos de horror. Hoje, estas duas pequenas são quase nada de grave. Semivirgens? Contaminadas de flirt? Sei lá! É preciso conhecer o Rio atual para apanhar o pavor imenso do que poderíamos denominar a prostituição infantiL. Este é o caso bonito - não se aflija - bonito à vista dos outros, porque os outros são sinistros. O que Paris e Lisboa e Londres, enfim as cidades européias oferecem tão naturalmente, prolifera agora no Rio. A miséria desonesta manda as meninas, as crianças, para a rua e explora-as. Há matronas que negociam com as filhas de modo alarmante. Há cavalheiros que fazem de colecionar crianças um esporte tranqüilo. A cidade tem mesmo, não uma só, mas muitas casas publicamente secretas, frequüentadas por meninas dos doze aos dezesseis anos. Ainda outro dia vi uma menina ..." (trecho da Crônica Modern Girls de João do Rio, retirado do livro "As Cem Melhores Crônicas Brasileira de Joaquim Ferreira dos antos, da Objetiva, 2005)